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Sistema Cantareira opera com 42,1% de capacidade e deixa estado de atenção, mas déficit de chuvas ainda preocupa, diz especialista

Sistema deixou o estado de alerta registrado em dezembro, quando operou com 32,7% da capacidade; nesta sexta, valor saltou para 42,1%, de acordo com a Sabesp. Professor da USP diz que desmatamento reduziu chuvas; segundo o especialista, fenômeno La Niña também reduz chuvas ao sul do país .

Área de Proteção Ambiental Sistema Cantareira em agosto de 2020 — Foto: Divulgação/Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente

O Sistema Cantareira deixou o estado de alerta registrado em dezembro, quando operou com 32,7% da capacidade. Nesta sexta-feira (22), esse valor saltou para 42,1%, de acordo com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Um manancial opera em nível de alerta quando o volume registrado é igual ou menor que 40%.

Apesar da melhora, a situação continua preocupante. Isso porque, de acordo com um especialista ouvido pelo G1, tem chovido menos que as médias históricas. E o sistema vem acumulando déficits sucessivos nos últimos anos.

Embora as chuvas de janeiro estejam se aproximando da média, o nível do Cantareira subiu apenas 5,9% de 1º de janeiro até esta sexta, de acordo com Pedro Luiz Côrtes, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo (USP).



“Esta é uma situação que atinge reservatórios de grandes hidroelétricas na região central do Brasil e que dependem das chuvas que vêm da Amazônia. Como o desmatamento está reduzindo essas chuvas, os reservatórios acabam ficando abaixo da média histórica”, afirma o professor.

Há exatamente um ano, o Sistema Cantareira estava com 45,2% de sua capacidade. A redução pode parecer pequena em relação ao registrado nesta sexta-feira. Para Côrtes, porém, ela é bastante significativa, considerando-se o volume armazenado.

baixo nível de água no Cantareira pode indicar problemas de abastecimento de água em 2021, caso não haja a população não reduza o consumo e não ocorram chuvas em quantidade suficiente. Com menos água disponível, a conta de luz fica mais cara, pois a redução de capacidade de geração hidroelétrica faz com que se use mais a geração térmica – e esta tem custo operacional maior.

Cantareira abastece, por dia, cerca de 7,5 milhões de pessoas , ou 46% da população da Região Metropolitana de São Paulo, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), órgão que regulamenta o setor. O sistema é formado por seis represas: Águas Claras, Atibainha, Cachoeira, Jacareí, Jaguari e Paiva Castro.

Além do Cantareira, outros seis sistemas abastecem a Região Metropolitana. Veja, abaixo, a capacidade de cada um deles aferida nesta sexta:

  • Cantareira –42,1%
  • Alto Tietê – 57,2%
  • Guarapiranga – 68,4%
  • Cotia – 70%
  • Rio Grande – 81,4%
  • Rio Claro – 48,9%
  • São Lourenço – 60,8%

volume total armazenado está em 52,2%. A esta mesma altura do ano passado, esse nível agregado era de 64,3%. A queda de 12,1 pontos percentuais representa um dos efeitos do La Niña. De acordo com Côrtes, o fenômeno causa menos chuvas (leia mais abaixo).

Queda de 12,1% e menos chuvas

O La Niña é um fenômeno natural que, ao contrário do El Niño, diminui a temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico tropical central e oriental. Mas, assim como o El Niño, gera uma série de mudanças significativas nos padrões de precipitação e temperatura no planeta.

No Brasil, o La Niña é responsável por levar mais chuva ao Norte e ao Nordeste – em 2021, especificamente, isso deverá ocorrer com intensidade maior no Norte que no Nordeste. Por outro lado, o fenômeno reduz as chuvas na porção Sul do Brasil, e isso pode ter repercussão em São Paulo.

“A queda de 12,1 pontos percentuais [no nível agregado] representa o efeito do La Niña, que reduz a quantidade de chuvas em São Paulo. [A situação] também é resultado da redução das chuvas que vêm da Amazônia e que constituem a principal fonte de abastecimento do Sistema Cantareira. Como essas chuvas estão mal distribuídas em São Paulo e municípios vizinhos, é frequente que, em alguns locais, chova muito e em outros não chova”, afirma Côrtes.

Desde 2016, há déficit de chuvas responsáveis pela recarga do Sistema Cantareira em relação à média histórica na região. Em 2020, o déficit alcançou o pico de -23% (veja o gráfico abaixo).

Gráfico mostra déficit de chuvas desde 2016 — Foto: Reprodução/Divulgação

Gráfico mostra déficit de chuvas desde 2016 — Foto: Reprodução/Divulgação

De acordo com Côrtes, a previsão é que o La Niña termine no início do trimestre março-abril-maio. Ao final desse período, inicia-se a chamada Fase Neutra, que vai até até agosto. Segundo Côrtes, isso é péssimo para a recarga do Sistema Cantareira.

“Boa parte de nossa crise hídrica ocorreu sob a Fase Neutra. Depois, é possível que o La Niña volte, o que é muito ruim também para a recarga dos mananciais, como já estamos verificando agora. Em resumo, o prognóstico de chuva para a metade do ano e início do segundo semestre é ruim para a recarga dos mananciais”, diz o professor.

Em maio de 2014, quando houve crise hídrica, o volume do Sistema Cantareira atingiu 29,6% de sua capacidade, e a Sabesp passou a operar bombeando água de seu volume morto.

Trata-se de uma reserva com 480 bilhões de litros de água situada abaixo das comportas das represas do Cantareira. Até então, essa água nunca tinha sido usada para atender a população.

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